É possível a gente se reinventar

Já escutei várias vezes pessoas desejosas de aprender a pedalar mas desanimadas por
acharem que o tempo de aprender já passou, ou que é muito difícil, ou que não têm tempo, ou
que… Não faltam justificativas. É particularmente com estas pessoas que eu quero compartilhar
algumas reflexões que tenho feito principalmente a partir das minhas experiências na bike,
conversando e ouvindo alguns amantes do pedal, observando as pessoas pedalarem no asfalto e
na estrada de terra. E o que eu tenho aprendido com a bike vai muito além do equilíbrio no pedal.
Esse processo tem me cobrado diariamente um pensar sobre a técnica, sobre o impacto desse
aprendizado na minha vida e sobre o significado simbólico dessa jornada que não tem fim e que
se renova a cada dia.
Muitos dizem que aprender a pedalar quando criança é mais fácil pois é quando não temos
as preocupações ou os entraves do adulto. Pode até ser. Mas eu acredito que ingressar no
universo da bike já na idade adulta tem inúmeras vantagens que só nós adultos podemos
desfrutar e que ultrapassam o aprendizado da técnica. A bike nos proporciona uma chance única
de transformar as nossas vidas que pode ser decisiva na nossa busca pela felicidade e pela
realização pessoal. Quando você começar a pedalar verá que, para nós adultos, é a oportunidade
de experimentar um processo de autoconhecimento, de superação e de conquistas que, muitas
vezes, a rotina pesada das responsabilidades e das condutas sociais nos privou de buscar e
alcançar até este momento.
A primeira coisa que você deve saber é que aprender a pedalar exige de nós força e
coragem para deixarmos a nossa zona de conforto e a nossa rotina. Você precisa estar
preparado para enfrentar um universo desconhecido, para explorar novas possibilidades, para se
entregar por inteiro a uma mudança. Saiba que a cada pedalada no asfalto ou no chão você vai
trilhar intimamente um caminho diferente.
Superada esta primeira barreira você agora tem a bike a sua frente. Isto significa que entre
o seu corpo e o espaço você tem uma máquina cujo movimento exige uma atitude e uma
consciência corporal diferente da que você está acostumado. A bike exige equilíbrio e movimento
ao mesmo tempo. É quase um mantra: “tem que equilibrar senão não adianta pedalar”. Pode ser
difícil para quem nunca pôs os pés no pedal, mas não é impossível, acredite!
A partir das primeiras pedaladas tenha em mente o seu tempo. Não se compare com os
outros. Aprender a pedalar não é uma competição. Não tenha pressa. Nada de ansiedade. O que
também pode ser difícil, principalmente se você for, como eu, uma ariana com ascendente em
aquário! Treine na bike e exercite a paciência. Seja paciente com você. Neste aprendizado não
há erros! Nunca há retrocesso! Não existe fracasso, mas pedaladas sempre em direção ao êxito.
Saiba que cada dia, por menor que tenha sido seu progresso, é uma conquista que nunca mais
vai sair de você. E seja paciente também com São Pedro, que volta e meia, nos prega peças e
arruína o nosso pedal. Você vai se pegar mirando constantemente o céu, mas não brigue com o
santo… Lembre-se: paciência!

Agora, seja forte! Essas primeiras experiências na bike fazem emergir do fundo do baú um
turbilhão de emoções e sensações. Digo sempre que o pedal é uma aventura solitária. Ainda que
tenhamos um professor dedicado e zeloso, somos nós e a bike. Aprender a pedalar proporciona
não só uma sensação de liberdade, mas uma oportunidade única da gente se conhecer, conhecer
nossos limites e medos, de nos incentivar a sermos corajosos e pacientes conosco, de enfrentar,
às vezes, fantasmas que nos assombraram por tanto tempo e que a gente nunca se deu conta
deles.
Aprender a pedalar nos pede coragem, determinação, nos coloca frequentemente diante de
obstáculos e frustações, medos de cair – sim, você vai cair! -, de se machucar e de machucar
alguém, de fracassar, de se frustrar e de frustrar pessoas que a gente ama. Não somos só nós
que criamos expectativas e a gente vê isso nos olhos delas… E essa dor, que não é da pele, dói
fundo tanto quanto as pernas arranhadas dos tombos. E estamos e nos sentimos sozinhos até
pra chorar as mágoas, afinal só nós podemos entender que estas dificuldades são da alma e do
coração e dizem respeito a outras dores, de raízes profundas que até então não sabíamos que
estavam em nós. A rotina massacrante de anos das nossas vidas cobrem estas raízes e
mascaram a sua real existência: a constante dependência da aprovação dos outros, a nossa
incapacidade de lidar com nossos limites que dá lugar a eternas desculpas de que não tenho
tempo para, o nosso real desejo de se completar no outro que é ocultado pelo “eu me basto”…
Pedalar é terapêutico! Dói! Incomoda! Começar a enxergar as nossas dificuldades e frustrações
sob este outro prisma é uma revelação e uma revolução!
Pedalar sempre nos obriga a sair da nossa zona de conforto onde as nossas limitações,
medos e fracassos muitas vezes são imputados por nós a outros e nunca a nós mesmos. Sair da
zona de conforto e encarar esta outra realidade surge então como uma possibilidade da gente se
reinventar. É… Pedalar é um caminho de autoconhecimento! Digo então que o universo está
sempre conspirando a nosso favor ao nos dar uma oportunidade de viver diferente, de viver de
verdade. Pois a vida é cheia de riscos e de medos. O pedal está sempre me cobrando coragem
de viver, me lembrando que a zona de conforto é muito chata e triste e que ainda que os desafios
assustem são eles a essência da vida afinal viver é enfrentar desafios, pequenos, grandes,
diários! A bike está sempre nos colocando novos e infinitos desafios. A propósito, você já se
perguntou qual é o seu desafio hoje?
Mesmo que sigamos em frente nós sempre vamos cair uma hora. Essa minha observação
vale tanto pra bike quanto pra vida. Estou pensando para além do princípio da física que explica o
movimento da bike. Brinco que, a partir de algumas quedas que deixaram alguns arranhões,
cheguei a conclusão de que deveríamos todos aprender a cair da bike ou pelo menos a saber que
vamos cair, porque uma hora vamos cair. E o mais legal é que vamos nos levantar depois e
continuar a pedalar. Na bike é como na vida, vamos cair e nos levantar de novo, pedalar e seguir
em frente. E se rolar umas lágrimas nos olhos de decepção ou de dor encare que são pra lavar a
alma e renovar a nossa confiança nas nossas conquistas. Ria das marcas dos tombos que levar,
tome-os como sinais impressos no seu corpo das vezes em que você tentou viver ao invés de se
contentar em ver a vida passar. Acho que é um aprendizado formidável esse que a bike nos
proporciona. Encarar nossas quedas e acreditar na nossa capacidade de nos reerguermos e
seguirmos em frente.
Segundo as leis da física, para evitar o desequilíbrio da bike e uma possível queda você
tem que pedalar e fazer girar as rodas da bike. Faça vento, sol, chuva, não importa o chão, o
cansaço, a distancia que falta…pedalar…pedalar…seguir em frente…deixar pra trás tanta coisa,
gente, bicho, árvores, carro…Deixar para trás o passado, aquilo que não foi como planejamos,

deixar de lamentações pelos nossos erros e viver o presente, seguir em frente. Se eu paro de
pedalar sempre que o medo volta, sempre que encaro um terreno novo eu não chego a lugar
algum, eu não pedalo e perco a oportunidade de experimentar aquela sensação de quase voar.
Com a vida acontece a mesma coisa: quando ficamos agarrados às lembranças dos nossos erros
e acertos, do que poderia ter sido, de achar que o passado é melhor e não acreditar que coisas
boas possam já estar acontecendo ou possam acontecer, não vivemos.
Deixar a nossa zona de conforto é arriscar errar, é ter que enfrentar desafios, dúvidas, é
caminhar para o desconhecido. A nossa zona de conforto pode estar no trabalho maçante que
oprime, nas relações amorosas que nos trazem frustrações, na rotina que nos mata lentamente…
Apesar da consciência desse sentimento  negativo que toma conta do nosso ser não
abandonamos a nossa zona de conforto por comodismo e conveniência, por medo de enfrentar o
desconhecido, de errar e sofrer acreditando que do jeito que está ainda é a melhor opção. Mas
viver é arriscar a todo o momento, é tentar, mesmo com medo, pois só assim nós nos
construímos como pessoas.
Viver é transformação! Quando eu não me permito mudar, de planos, ideias, amores,
quando eu não permito deixar o passado pra trás, eu não vivo. Eu não vivo quando acho que só
existe um caminho possível. Ora, se não posso seguir em linha reta, como planejado, faço uma
curva e, ainda que demore um pouco mais, posso chegar no mesmo destino ou em outro, talvez
mais bonito e interessante…
Viver é abraçar mudanças e tentar fazer curvas – de preferencia com uma bike!! E acredite é
sempre é possível encontrar belas surpresas depois de uma curva…
Agora respire fundo, olhe o horizonte e se pergunte:
Quando foi que eu deixei de me guiar pelo vento e pela emoção? Quando foi que eu deixei de
olhar o céu e as estrelas, de ver figuras nas nuvens?
Quando foi que eu me tornei tão cartesiana, tão reta e deixei a minha vida se acomodar na
certeza do óbvio sem espaço para surpresas, pra aquele frio na barriga, sem magia…?
Quando foi que eu deixei de tentar ser feliz?
Quando foi que eu deixei de fazer curvas?
Então pedale!
Pedale e faça linhas sinuosas no chão, curvas e mais curvas e se reinvente! É possível! Nunca é
tarde! Pedale! Mesmo que seja uma distância curta. Não desista! – como eu já ouvi tantas vezes
do meu professor. Tenha a audácia de dizer não a tudo o que confina sua alma entre quatro
paredes impedindo-a de ser leve e seguir… tantos caminhos possíveis. Pedale!
Um último aviso: digo que todo ciclista é um pouco a figura do Louco do Tarô, com a
coragem e a certeza de seguir em frente, guiado pelo coração, e de ver além da aparência das
coisas, desprendido, ousado, ignorando a linha reta e tentando adivinhar o que está por trás da
curva. E se por um lado o pedal é uma aventura solitária como eu disse anteriormente, por outro
também é uma jornada que agrega pessoas e corações que serão eternamente apaixonados pela
bike pois nela sempre vão reconhecer aquela brecha de esperança que renovou suas vidas. E
aos poucos você vai encontrar pelas trilhas outros loucos com quem você vai querer
compartilhar… sonhos! Afinal, não são eles que movem a vida?

 

Adriana Sampaio Evangelista

Prof.ª Dr.ª em Ciências da Religião e Especialista em Arte e Cultura Barroca